27 de janeiro de 2010

A crise do ensino

O objetivo mais óbvio da educação é evitar a ignorância, tendo em vista que eliminar comportamentos rudes facilita o convívio social e leva a um futuro melhor. Embora o círculo de convivência (família e amigos) seja o principal meio por onde somos educados, as escolas também têm o dever de nos preparar pra saber operar informações necessárias em nossas vidas. Dito de outro modo, elas existem pra suprir ou complementar a educação que recebemos de berço.

É com base nessa premissa que os currículos escolares pelo mundo têm se focado em ensinar (através de inúmeras tarefas mecanizadas e repetitivas) conteúdos voltados a atender as necessidades do mercado de trabalho. Tal busca profissionalizante procura ensinar basicamente conteúdos técnicos, muitas vezes ignorando conhecimentos humanitários necessários para o convívio social. E é com essa postura que as escolas têm se distanciado do papel básico da educação.

Como a criatividade é a capacidade de inovar, de ver e fazer as coisas de uma maneira diferente, poderia ajudar bastante a humanidade criar maneiras melhores de viver no mundo. No entanto, o ensino puramente técnico tem limitado a criatividade das pessoas, fazendo muitos talentos se perderem na escola. Essa é a principal crítica da palestra abaixo (legendada em português).

O ensino que é puramente voltado pro mercado de trabalho gera outra consequência grave, que é a perda da capacidade crítica dos alunos. Em outras palavras, estes não conseguem mais questionar o mundo a sua volta e nem sequer procuram fazê-lo, aceitando as condições em que vivem sem cogitar a hipótese de trilhar seus próprios caminhos para mudá-la. Resumindo, as pessoas perdem autonomia.

A falta de autonomia é típica de pessoas treinadas pra executar tarefas repetitivas e seguir ordens sem ter consciência dos acontecimentos ao seu redor. Uma população assim não sabe empreender e fica sujeita a ser apenas uma peça substituível no mercado de trabalho, dependente dos outros. Boa parte disso é culpa da postura monótona das escolas, que deixa seus alunos desmotivados, sem vontade de ler e estudar.

Inclusive, eu já fui esse tipo de aluno. Odiava ir pra escola porque a maior parte das coisas que via lá não tinha a menor relação com minha vida e detestava ler (até a época que passei no vestibular só havia lido 1 livro literário em toda minha vida). Por sorte, sempre tive uma capacidade de aprendizado maior que as outras pessoas e, mesmo sem estudar, me mantinha como um dos melhores alunos da turma (queria passar direto pra ficar o menor tempo possível na escola). Hoje leio bastante e procuro constantemente me manter informado, uma vez que faço isso pela minha vida e não para ser aprovado numa matéria.

O ensino escolar deveria auxiliar o processo de aprendizado de forma agradável, mas sua finalidade restrita de passar no vestibular e arrumar emprego força os alunos a cumprirem suas enjoativas atividades apenas pra atingir estes objetivos. Como resultado, tal ensino forma pessoas incapazes de relacionar os conteúdos com suas vidas. É aí que se deve começar a fazer perguntas: pra quem serve essa educação? Quem define os conteúdos que serão vistos em sala de aula? E com qual intenção?

Os defensores de uma educação exclusivamente profissionalizante defendem que seja a mais adequada porque qualifica melhor as pessoas pro mercado de trabalho e ajuda assim no desenvolvimento do país, melhorando junto a vida da população. No entanto, tá na cara que esse tipo de educação está mais a serviço do país que das pessoas, uma vez que contribui pra que sejamos mais capazes de fazer qualquer serviço técnico que de relacionar com o próximo.

O ensino voltado só para o mercado de trabalho tende a criar um mundo em que as pessoas só ajudarão as outras caso vejam interesse nisso (especialmente o financeiro), já que não tem como objetivo principal ensinar valores mais humanos e solidários. Quando o interesse da educação passa a ser puramente econômico, deixa de lado todo o legado cultural da humanidade acumulado ao longo da história.

Sendo assim, quem se beneficia deste tipo de ensino? A primeira vista, pode parecer que sejam as grandes empresas, já que teriam mão-de-obra pronta para produzirem suas riquezas. No entanto, quando se fala em postos de trabalho mais avançados, as mesmas companhias começam a sofrer com os efeitos colaterais do ensino puramente técnico pois esses cargos exigem profissionais que saibam se relacionar com pessoas e tenham criatividade (ambas as capacidades são destruídas nas escolas deste tipo). Veja no vídeo abaixo a impotância da criatividade para o mercado.

Fica claro em ambos os vídeos que os palestrantes partilham a mesma opinião: só tem idéia original quem está preparado pra errar. No entanto, o que vemos hoje é uma sociedade repressora que condena tanto o erro ao ponto de ter gerado vários adultos carentes de criatividade. Quer a prova? Dê uma simples volta pela internet e veja quantas pessoas condenam o trabalho dos outros sem ao menos serem capazes de fazer algo similar ou de acrescentar uma crítica construtiva.

Esse tipo de atitude justifica a necessidade de uma educação mais humana pra ajudar moldar o caráter do povo no sentido da colaboração, contribuindo assim pra criar um ambiente que valoriza o esforço alheio ao invés de menosprezá-lo. Embora os conteúdos técnicos sejam muito importantes e necessários ao ensino escolar, não são mais importantes que os conteúdos culturais e humanistas.

Vale lembrar que ainda há o agravante da crescente desvalorização dos diplomas, já que em breve estes não valerão mais nada. O ensino profissionalizante deixará de ser um diferencial pra quem quer melhorar sua renda e isso servirá de justificativa para o descaso dos jovens com a escola. Assim, como é que os pais vão convencer seus filhos da necessidade do estudo? Ainda mais quando a fama (mesmo que repentina) é um dos raros meios que se consegue ganhar um bom dinheiro em pouco tempo, mesmo que a pessoa não tenha estudado quase nada pra atingí-la. Aposto que veremos cada vez mais gente se dedicando a chamar a atenção da mídia (usando os mais diversos meios possíveis) que se esforçando no estudo pra trilhar uma carreira profissional incerta.

Embora o ensino técnico escolar seja justificado por algumas pessoas pra favorecer o desenvolvimento do país, será que um país repleto de pessoas sem criatividade teria capacidade pra empreender negócios e gerar riquezas por conta própria? Provavelmente não. Um ensino que mata a criatividade deixa as pessoas passivas e dependentes, incapazes de criar as próprias oportunidades. Como resultado, a sociedade se acomoda e passa a esperar soluções prontas vindas de fora.

Como definitivamente o povo não ganha com isso (e nem todas as empresas), há um outro lado em que o ensino desprovido de críticas sociais é vantajoso: o dos políticos corruptos. Afinal, uma educação deficiente não fornece o conhecimento necessário para questionar os governantes e suas políticas, deixando o povo mais fácil de ser enganado (e iludido até o ponto de eleger quem lhe prejudica). O “engraçado” nisso é que, ao invés das escolas darem mais liberdade as pessoas, ainda continuam sendo mais um instrumento de alienação que contribui pra manter as injustiças sociais.

Não quero jogar todos os problemas em cima da escola, até porque é uma instituição que se responsabiliza por uma parte menor da educação que as pessoas recebem. Porém, se o ensino quer servir pra um futuro diferente do que a humanidade anda caminhando, deve adotar uma postura diferente. Assim, ao invés de esperar uma mudança vinda da escola, é preciso que haja antes uma mudança na escola.

Escrito por: Leandro Zayd; em: Idéias

  • Alberto disse:
    28 de janeiro de 2010 às 0:46

    Concordo 100% com o Sir Ken Robinson.
    Quando assisti o vídeo, até levei para debate na facu, com professores mais ligados.. mesmo assim parecia que eu estava falando coisas absurdas. Não por discordarem mas sim por nunca terem pensado por este lado e não terem idéia de como isso seria possível.
    Espalhar a idéia já é um ótimo começo.
    Mas sabemos que não é fácil.. digo, praticamente impossível. Custamos a ter colégios de tempo integral.

  • Alberto disse:
    28 de janeiro de 2010 às 1:26

    By the way.
    Creativity rules!

    hehe

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